Páginas

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Papéis Avulsos


   Estava quente e o sol ardia em seu rosto, o banco, que na noite passada fizera bem o papel de cama, soava desagradável em suas costas ao ouvir os estalos da madeira velha e seca. Pois bem se levantou e espreguiçou-se, “como fazem os bons felinos” pensou consigo. A boca seca fê-lo  olhar para o céu  como um lavrador em tempos de seca ora por chuva; os motivos eram distantes, mas a sede por uma garantia de sobrevivência se equiparavam afinal. 
   Observou a avenida movimentada a sua frente por alguns minutos ali de pé e, num súbito desentendimento com a realidade, se preocupou em desamassar as roupas e procurar por alguém para conversar.

----------------------------------------------------------------------------
   João acabara de acordar e, com os olhos ainda fechados, escovava os dentes de pé em frente ao espelho sob a pia. Na cozinha, sua mãe preparava o café ao mesmo tempo em que falava no telefone com uma amiga.
   - João! O café está pronto! Anda menino, vai se atrasar para a aula!
   O rapaz, agora deitado em sua cama, já vestido e pronto para o que considerava sua rotina automática (acordar, comer, estudar, dormir) levantou-se, olhou pela janela – morava no oitavo andar de um edifício no centro da cidade – e viu as pessoas, como sempre cheias de pressa, indo para algum lugar. Deu meia volta e direcionou-se para a cozinha onde a mãe, com o dom que possuem muitas mulheres, falava ao telefone, lavava a roupa e a louça da cozinha ao mesmo tempo em que terminava de servir o café, não competindo dizer que, ainda por cima, cantava a música que tocava naquele momento no rádio.

----------------------------------------------------------------------------
   Na rua, João esperava pelo ônibus quando um homem, de longas barbas, roupa rasgada e hálito parecido a aguardente com cigarros parou ao seu lado e, de frente para a avenida, indagou:
   - Tanta pressa e tão pouco tempo... Seja rico ou pobre, estamos todos perdidos, não concorda?
   O rapaz, um pouco indiferente, apenas assentiu positivamente com a cabeça e o homem continuou:
   - Sabe meu filho, eu tenho 48 anos ao todo e só 26 de vida, e...
   - Não entendo. Como pode o senhor ter duas idades, duas vidas em uma? - Interrompeu João.
   - Ora, é fácil! – O homem excitou-se com a atenção ganha – Tenho 26 anos de liberdade; aos 22, eu era assim, igual esse pessoal apressado – E apontou para a avenida.
   - Mas o senhor faliu? Abandonou tudo? – João interessava-se cada vez mais.
   - Fali sim, e junto com a falência o meu mundo caiu, minha mulher me abandonou e nunca tive um bom contato com a família. A vida passou a ser uma lástima, entende? Mas ai, me descobri cego diante de tanta clareza e, mergulhado na escuridão, ofusquei o superficial e o irrelevante que eu tanto pensava serem a luz da minha vida.
    João se pôs pensativo, afinal, o pensamento daquele sujeito coincidia com o seu, e continuava:
   - Olha, não me leve a mal, mas toda essa idéia de se ter uma meta, um objetivo na vida, é papo de quem nasce com mamadeira de cristal! Afinal, você acredita mesmo que esses riquinhos possuem dons naturais? Conversa para pobre desistir...
   João assentiu novamente; de longe viu sua condução se aproximar e tentou se despedir do homem a qual ouvira parte significativa da vida, mas encontrou somente uma figura distante, caminhando, provavelmente, em direção ao improvável. Deu sinal e entrou, observou da janela o homem por uma última vez, pouco antes de se perder em meio a confusão de pressas.

----------------------------------------------------------------------------
   Durante a noite, após o jantar, já deitado em sua cama, o pensamento do rapaz novamente se voltou ao estranho que conhecera e não conseguiu evitar as palavras que saíram quase imperceptíveis de sua boca:
   - Aprendi mais com um mendigo do que em todos esses anos de escola...
   Pensou naquele encontro o dia todo, não podia deixar que aquilo o afetasse tão ferozmente. Aquietou a mente, virou para o lado e enganou a si mesmo quando pensou aquietar a mente.

----------------------------------------------------------------------------
                                                              Final 1

   Caminhando madrugada a fora, o homem procurava por algo, não sabia o quê, mas continuava a caminhar. Sentou-se e encostou na parede de um edifício qualquer e sentiu um aperto no peito.
   - Finalmente! - Exclamou para si e, diante dele, tudo começou a escurecer, sobrando apenas um último pensamento:
   "Olá, liberdade!" E parou de respirar, ali, encostado em seu objetivo final.

                                                              Final 2

   Caminhando madrugada a fora, o homem procurava por algo, não sabia o quê, mas continuava a caminhar. Sentou-se e encostou na parede de um edifício qualquer e sentiu um aperto no peito. Vez em quando sentia saudades, mas também não sabia do quê. Talvez fosse apenas falta e não saudade. Falta de coisas que nunca existiram. 

   Começava a pegar no sono quando um cão sem dono se encostou ao seu lado, num gesto quase indecifrável para a nossa frágil compreensão de confiança e, olhando para o novo amigo peludo falou:
   -É, meu querido, a felicidade passa e a tristeza também... O que sobra além?
   O cão, como um bom ouvinte, olhou para o homem e pareceu entender. Conforme pegavam no sono, podia-se notar um sorriso no estranho e, no fundo dos seus pensamentos, quase se podia ouvir o indecifrável que a paz sugere.

Um comentário: